
7ª Parada da diversidade de Pernambuco. Falaram de 45mil pessoas. Pouco. Dizem de 100 mil no ano passado. Mesmo assim, foi especialmente feliz ver que, entre uma música para pular e outra, era reforçada a mensagem pela criminalização da homofobia - tema do ano e urgência política. Levei uns exemplares do Pancada #2 pra lá, entreguei a maioria a casais, já que a idéia principal do zine é dizer “namorem em paz fora dos lugares GLS”. Ah, se metade dos GLBTTT presentes naquela parada se beijassem sem tanta preocupação com os outros as coisas avançariam tão mais rápido... Também ajudaria muito se não se caísse em erros estúpidos como o do trio que tocou "tapinha não dói" em plena parada, um momento de protesto contra a violência homofóbica. Pra falar a verdade, isso não é coisa que se toque em canto nenhum.
Mas a irritação começou antes. A meia hora de preparação antes de sair de casa trouxe uma série de lembranças péssimas, do tipo “que história é essa de dizer no orkut que é bissexual? Você está querendo me expor?” Incrível como as pessoas invertem as coisas. Eu gosto mesmo é de me expor e, com isso, levar um tanto de gente a discutir e, eventualmente, abrir um pouco a cabeça. Homofobia é um mal curável e, muitas vezes, o principal é passar o choque inicial que vem na cabeça das pessoas com o desconhecido. É por isso que, apesar de não ficar nem um pouco à vontade com nudez ou semi-nudez pública, não achei ruim que os travestis exibissem seus seios em plena avenida Boa Viagem. A parte ruim disso é que o efeito é um tanto incontrolável, assim como ocorre com as drags. O caso é que, diferente dos heterossexuais que ficam à vontade e se divertem na parada, tem aquele povo dos prédios, que olha por cima dos muros e, hora aplaude e acena, hora se cutuca e aponta como quem diz: “olha lá, olha que gay engraçado!” Isso é especialmente incômodo porque se trata de um evento político, e não de um desfile das Virgens do Bairro Novo.
De toda forma, o humor é, também, uma modalidade de resistência, ajuda a pessoa a enfrentar olhares de espanto e/ou condenação. Nunca esqueço das manifestações de Yohana, a drag mais gente boa que já conheci, que se montava inteira para ir ao Recife Antigo, pegava ônibus, avacalhava com todos que a olhavam de lado, virava o centro das atenções e, depois de tudo, entrava na boate de graça, porque era mulher. Talvez nem ela soubesse, mas, mesmo que sua forma de agir não gerasse grandes debates políticos, era fundamental para que aquelas pessoas todas se lembrassem que a diversidade existe para além dos espaços GLS e que, antes de apontar alguém, é preciso lembrar que somos todos apontáveis. É a boa e velha regra de ouro do só fazer com os outros o que gostaria que fosse feito consigo.
de toda maneira, o caminho é longo, há uma grande distância entre ser aceito como gay e ser aceito como gay que se relaciona. Sim, beijar pode ser um ato político e deixar publicamente claro que é homo ou bi (no orkut ou onde quer que seja) é tão importante para as conquistas do movimento gay quanto foi, para o movimento negro, quando as pessoas começaram a responder ao censo: sou negr@.
2 comentários:
Acho que a maior qualidade das paradas glbts é justamente misturar o evento político à festa. Se fosse só política, teria siso demais para alguém que só quer ser aceito. Com a presença da festa, tem funcionado: cada vez mais os heteros participam, se divertem e, principalmente, convivem.
Justo, o importante é não esquecer, no meio da festa, de que há um conteúdo político a ser tratado, e isso envolve todo mundo.
: )
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