A universidade é um lugar estranho e a sociologia é uma tentativa de saber estranha que nos leva a exercícios enlouquecedores de teoria no cotidiano. Lembro que, pagando sociologia I na Católica, fomos obrigados a relacionar teoria e cotidiano. Claro que não conseguíamos fazer isso e metade da turma foi para a final. Julgavam que era sadismo de Valdir ser rigoroso nas correções, mas sadismo mesmo era querer que aprendêssemos a fazer tais relações. Toda vez que fico feliz pensando que aprendo, penso melhor e me arrependo.
Às 21h eu estava num mini-curso chamado “civilidade e moralidade em Adorno e Elias”, questionando se a norma de civilidade de não falar com estranhos não estaria descolada da norma de segurança de não falar com estranhos. Às 21h07 eu estava comprovando a resposta de Simone de que o medo é, também, uma forma de civilizar.
Um carro atravessado na frente das duas garagens onde eu poderia entrar. Quebrar os vidros do carro, furar pneus e arrancar calotas foram as primeiras sugestões da minha mente. As pessoas custam a crer, mas esse tipo de ação que o pensamento civilizado e a possibilidade de processo ou morte me impediram de ter não seria simples descarrego de raiva, mas uma forma de educação moral, para que as pessoas lembrem que há outros neste mundo e é preciso pensar neles.
Dia desses ouvi que um colega levou luz alta no trânsito, deixou a criatura mal-educada passar e tacou-lhe luz alta de volta. Pouco depois o primeiro grosso deu um tiro. Não pegou (ufa). O fato é que isso significa que uma das minhas principais atitudes educadoras no trânsito podem trazer minha morte, e eu sou o tipo de pessoa que teima que morrer não é parte natural da vida – ao menos não antes dos 108. É verdade, então: o medo faz parte do processo civilizador. Deve ser por isso que, na posição de namorado e co-piloto oficial, Lelo sempre me olha com cara de quem diz “lembre que Lira quase leva um tiro”.
Pensar nessas normas me fez lembrar, também, que não falar com estranhos é uma regra de civilidade contra a qual Fernanda criou uma espécie de mantra, repetido ao infinito lá pela cidade solar. E não é engraçado que essa pessoa seja a mesma com quem quebrei a regra de civilidade de não trocar homoafetividade em público? E que talvez seja essa a regra mais confundida com moralidade? Eu reclamo, mas sempre faço questão de voltar à universidade. Gosto de Simone, Adorno e Elias porque é sempre bom lembrar como pode ser péssimo esse negócio de civilização.
(é preciso aprender a falar com estranhos - pedaço de página do Esplim #7)

Um comentário:
pois é, eu quase risco o carro só de raiva msm, axo q eu não sou tão civilizado quanto parece, já que ainda não internalizei o processo né?! Engraçado que isso vai de encontro ao meu olhar pra vc e dizer que "Lena, não precisa disso tudo" qdo vc bota luz alta...
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